As bicicletas de Iberê Camargo

“Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza.”[+]

Iberê Camargo

Estudo para Crepúsculo da Boca do Monte, 1991 © Iberê Camargo - Fundação Iberê Camargo
Foto: Fábio Del Re

Ciclista

Diferença

Traço

Repetição

Insistência

Mulher

Humanidade

Nu

Vazio

Manequim

Plástico

Desejo

Azul

Bicicleta

Cor

Transparente

Desmaterializado

Ser

Homem e coisa

Caminho

Gesto

Máquina

Carne

Vida

Contrário

Desencarnar

Tempo

“Vemos algo recorrente na pintura de Iberê: diferentes modalidades de repetição. [...] é a série como insistência sobre um tema. [...] Abordar o mesmo tema uma, duas, dez vezes é tentar gerar, pela própria repetição, a diferença. [...] A migração dos corpos e das paisagens de uma tela à outra os transforma.” [+]

Icleia Borsa Cattani

“Essa mulher – a ciclista [...] Ao se alienar no mesmo traço da máquina que a transporta, ela passa humanidade aos objetos com os quais entra em contato.”[+]

Paulo Sergio Duarte

“A cor dos corpos desborda, espalhando-se pelo entorno; ou são eles atravessados pelas mesmas cores daquilo que não os constitui. Seres azuis, o mais das vezes, sobre lugares igualmente azuis. Seres transparentes, desmaterializados, sobre ou através de lugares igualmente sem concretude.” [+]

Icleia Borsa Cattani

“Iberê nos fala, no traço e na mancha de seu desenho na gravura, da presença de um corpo, que não é só gesto, mas algo como uma trilha que anuncia o caminho do Ser, como se ciclista e bicicleta, homem e coisa, fossem um só [...].”[+]

Paulo Sergio Duarte

“O centro dessas pinturas é o corpo: o corpo aí é carne, a carne é vida e a vida é assustadora, sensual e finita.”[+]

Luiz Camillo Osorio

“O preço de impregnar a máquina de humanidade e de com ela se confundir, é se apresentar como ser desossado e desencarnado.”[+]

Paulo Sergio Duarte

“Com os ‘Ciclistas’, pode-se pensar que Iberê, na qualidade de artista, se revolta contra a impossibilidade de dominar a ampulheta, mas suas bicicletas voltadas para a esquerda indicam o contrário. Seguindo a implosão do tempo linear proposta pela pós-modernidade, seus ciclistas podiam se dirigir ao já vivido, o que era vetado ao próprio artista.” [+]

Blanca Brites

Desorientado

Finitude

Movimento

Expressão

Andarilho

Carne

Morte

Vazio

Realidade transfigurada

Dramático

Existência

Sonho

Solidão

Tristeza

Subjetividade

Sombrio

Trágico

Dor

Soturno

Presença

Sofrimento

“[...] todos nós, no fundo, somos andarilhos e esses, e esse, no fundo, sou eu mesmo, no fundo sou eu esse andarilho, que não sabe para onde vai [...].”[+]

Iberê Camargo

“Vejo nas últimas pinturas de Iberê, desde os Ciclistas, um confronto direto com a finitude. Seja no movimento insinuado das bicicletas que nos levam a lugar nenhum, seja nas enormes figuras cuja expressão está na carne e não no rosto, o que vem à cena é a presença da morte.”[+]

Luiz Camillo Osorio

“Nas séries de pintura ‘Tudo te é falso e inútil’, ‘Ciclistas’ e ‘No tempo’, que ensaia numa profusa quantidade de desenhos e guaches preciosos, é nítida a exacerbação da carga dramática, que se articula em uma narrativa ficcional (que, no entanto, é sua verdade), do desespero diante da morte e do vazio da existência.”[+]

Virginia H. A. Aita

“A realidade transfigurada [representada nos quadros do artista] banha-se então numa atmosfera de sonho; de um sonho espesso, que nasce da noite profunda do homem.”[+]

Ferreira Gullar

“Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.” [+]

Iberê Camargo

Pigmentos

Desordem e rigor

Manchas

Traço

Tinta a óleo

Camadas

Nanquim

Lápis

Grafite

Caneta esferográfica

Lápis de cor

Guache

Envolvimento

Aguada

Gravura

Água-forte

Matriz de cobre

Ateliê

Água-tinta

“Uma drástica pincelada que rasga a pasta estelar é um braço, uma profusão de traços e manchas velozes vira mão humana, espectral, numa extraordinária síntese que junta ordem e desordem, improviso e rigor.”[+]

Ferreira Gullar

“Depois de tanta matéria acumulada, seguidamente o último gesto de Iberê, com o cabo do pincel ou uma espátula, às vezes com o próprio tubo da tinta, era riscar uma derradeira linha, que parecia reduzir todo aquele esforço, toda aquela busca, todo aquele incessante trabalho, a uma síntese das sínteses, um quase nada, como um sorriso desprevenido, um desenho.”[+]

Eduardo Veras

“Mas é certo também que a preocupação de Iberê com materiais e a técnica da pintura, se então se manifestava em termos de mero aprendizado, era já o sinal de um temperamento que não se satisfazia com as aparências e que necessitava fundar sua fantasia em algo palpável e concreto, como se verá mais tarde.”[+]

Ferreira Gullar

Vida

Espetáculo

Artista

Vazio

Professor

Expressão

Indiferença

Convicção

Parque da Redenção

Porto Alegre

Sombrio

Homem-pintor

Movimento

Paz

Conciliação

Morte

Inevitável

Queda

“O que eu faço está muito carregado de minha vida, das imagens que eu tenho dentro de mim. Eu não apresento um espetáculo. Sempre achei em toda a minha pintura um halo de tristeza, sempre pintei esse vazio.”[+]

Iberê Camargo

“[...] do modo como ele trabalhava: construindo e desconstruindo imagens, anulando o que mal acabara de erguer, riscando de novo e mais uma vez, gestos livres mas precisos, o rosto em expressão concentrada, a firme indiferença diante dos apelos para que suspendesse a empreitada, a convicção de que, ao contrário do que lhe diziam, o trabalho não estava acabado. Nunca estava.”[+]

Eduardo Veras

“Nos anos finais da vida, adentrando a década de 90, surgia outra coisa – aquelas figuras caídas, recolhidas, contra uma linha de horizonte, uma atmosfera sombria, metálica. [...] Esses últimos quadros são algo sentimentais, literários, quando confrontados à fase austera que os precedera, como se Iberê assinasse, ao mesmo tempo, um quadro e o relato de uma vida.”[+]

Mário Carneiro

“Após os gestos desesperados, as convulsões, os espasmos, os estertores, realidade e pesadelo se misturam: uma suave sensação de paz, de conciliação, de reintegração e de dissolução – como a do sal na água – o invade. O homem-pintor não sente mais o corpo, que por fim se aquieta. A noite desce, uma noite diferente, espessa, impenetrável, mas leve como uma mortalha. Dorme, dorme, foi a última palavra que ele ouviu.”[+]

Iberê Camargo