I, Hamlet
Campo Minado
Cláudio Bueno
O Artista

Cláudio Bueno (São Paulo, SP) é doutorando em artes visuais pela ECA/USP. Foi residente do LabMIS. Ganhou o prêmio Mídias Locativas do Festival Arte.Mov e foi indicado ao Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia. Integra grupos de prática artística e de pesquisa, como o LAT-23, com o qual participou do Transitio_MX, na Cidade do México; do Connecting Urban Spaces, nas Filipinas; e do programa Rumos Itaú Cultural Cinema e Vídeo. Com o grupo Poéticas Digitais, da ECA/USP, participou da mostra Emoção Art.ficial 5.0, no Itaú Cultural. Com o Arte & Meios Tecnológicos, do CNPq/Fasm, organiza simpósios e exposições. Em 2011, será residente no centro de arte La Chambre Blanche, em Québec, Canadá. Apresentou seus trabalhos nas exposições Galeria Expandida, na Luciana Brito Galeria, São Paulo; Grau Zero, no Paço das Artes, São Paulo; Circuito Sesc de Artes; 24h de Ocupação, no Marp, Ribeirão Preto; E a Vida Continua, na Funarte; Demasiada Presença, na Escola São Paulo; Mobilefest, no MIS, São Paulo; e Red Bull House of Art, São Paulo, entre outros

A Obra
 
Campo Minado é um game que acontece nas ruas da cidade por meio de uma interface mobile geolocalizada. Orientado por um mapa, o jogador deve percorrer uma região predeterminada, do ponto A ao ponto B, tomando decisões de direção que não passem sobre as minas. Caso decida pela direção errada ou esgote o tempo máximo de cruzamento entre os pontos, o jogo acaba para ele Na mostra Rumos Arte Cibernética 2011, o trabalho se dividiu entre o espaço expositivo interno e o externo. Dentro do Itaú Cultural estavam: um vídeo que documenta o projeto e uma projeção no chão, que transmitia em tempo real o deslocamento dos jogadores na rua. Do lado de fora, foi instalada, na Praça Alexandre de Gusmão, uma base móvel equipada com vídeo sobre o projeto, aparelhos celulares prontos para jogar e equipe de apoio, que recebeu as pessoas ao longo de dois meses, de terça a domingo, das 11h às 15h A criação do trabalho é impulsionada pela reflexão crítica em torno da euforia coletiva pela utilização de sistemas de mapeamentos e pela compra de aparelhos GPS. Esses equipamentos são apresentados hoje das mais variadas formas, como: monitoramento de veículos, cachorros e até mesmo bolas de golfe Como forma de desviar o uso desses dispositivos de localização, que visam ao controle do espaço com certa segurança e precisão, Campo Minado não pretende indicar o caminho certo, mas sugerir uma matriz de possíveis erros, de incertezas, de exploração e de experimentação do território percorrido Por meio da metáfora do “campo minado”, o trabalho sugere observações sobre as camadas invisíveis e imponderáveis de nossos percursos diários.
 
Campo expandido
 
Pensar aqui na expansão do conceito de campo é: primeiro, compreender a abrangência do termo “campo minado” nas relações com a vida, sejam elas interpessoais, institucionais ou com a cidade; segundo, distender o campo de atuação artística por meio da sobreposição de camadas de informação aos diversos lugares da cidade. Desse modo, possibilitar a realização de ações poéticas, críticas, narrativas e de jogo no espaço público, sem a obrigatoriedade de construção de novas estruturas físicas, tendo em vista também a escassez de espaços de lazer e cultura no Brasil Campo Minado nos incita a refletir sobre aquilo que nos escapa, ou seja, os fluxos imateriais, informacionais e simbólicos presentes em todas as relações diárias – que não vemos, mas nos afetam; que tentamos capturar, em vão. São ocultações que provocam o descontrole, a possibilidade do erro e da dúvida O que está visível parece estar dado – o que está ocultado é para ser investigado É, portanto, desse modo que parecem se dar as relações cotidianas, nas quais certo grau de opacidade nos coloca diante de possíveis campos minados Tais virtualidade e invisibilidade de trabalhos como Campo Minado têm possibilitado novas maneiras de ocupação do espaço público, que se diferenciam daquelas assistidas desde os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos e, principalmente nos anos 1990 no Brasil. Aqui, ao contrário de ressaltar o nosso pouco-caso com determinadas áreas da cidade por meio de enormes intervenções físicas e visuais, que, em geral, mais nos deixam entrever a nossa incapacidade de ação do que nos convidam para tal, trata-se de reafirmar a importância da presença e do agenciamento do indivíduo no espaço habitado, como produtor desse espaço que lhe pertence Espera-se que trabalhos que lidem com sistemas digitais e de transmissão sejam diminutos em sua espacialização física, sendo exibidos dentro de salas escuras ou de computadores ligados a redes fixas – Campo Minado, assim como outros trabalhos da mesma natureza, se expande para grandes escalas e espaços abertos, sem necessariamente limitar a dimensão da ação ou reafirmar a presença do artista – quando nem temos certeza se ele é benquisto Utilizando o sistema criado para o trabalho, qualquer lugar da cidade (ou até mesmo do mundo) pode se tornar um campo minado – desde a praça ao lado de sua casa até o Central Park, em Nova York. São camadas de informação adicionadas sobre um território físico, que passa a ser constituído, também, por uma arquitetura e um território informacional. A cada novo local de instalação, novos contextos e novos sentidos passam a se embrenhar ao trabalho Esses novos modos de ocupação do espaço têm se tornado uma questão importante para mim, como artista de Campo Minado, diante da percepção da baixíssima sensação de pertencimento das pessoas com a rua, e dos sistemas de controle (aqueles que não têm a ver diretamente com dispositivos tecnológicos, mas que tornam a cidade um local exclusivo de passagem, liso e de baixo contato). Vale destacar aqui um dos momentos do jogo em que o sistema pergunta ao jogador sobre alguma característica do espaço físico. Essa estratégia faz com que ele saia da tela e perceba seu entorno Por fim, como última expansão do campo a citar neste texto, está a trama construída entre arte, jogo e tecnologias de comunicação. São sistemas e linguagens prontos para ser tomados emprestados e utilizados como ponte de contato com um público até então desconhecido, mas certamente menos carregado de preconceitos do que aquele especializado, viciado e preocupado com a manutenção do sistema ”oficial“ das artes
 
Campo de pesquisa
 
Campo Minado tem importância fundamental no processo da minha pesquisa artística, ativando, neste caso, uma trilogia composta das obras Redes Vestíveis1 e Lugares Invisíveis2, desenvolvidas em 2010 e 2011 Finalizo, portanto, reforçando a necessidade de outros programas de apoio à experimentação e pesquisa, sem a lógica de apresentação de produtos finais, mas de projetos que possam ter seus trajetos desviados e que possam ”perder o rumo“ em seus longos caminhos percorridos

Créditos
(para catálogo)

Concepção e direção: Cláudio Bueno

Programação: Roger Sodré

Fotos de divulgação: Cauê Ito

Colaboradores ou agradecimentos: Ananda Carvalho, André Pupo, Cauê Ito, Claudia Sandoval, Denise Agassi, Eduardo Salvino, Isabela Jordani, João Marcelo Simões, Gilbertto Prado, Lucas Bambozzi, Guilherme Kujawski, Lina Lopes, Luciano Bonachela, Marcos Cuzziol, Mateus Knelsen, Marcelo Salum, Thiago Hersan e Vitor Calejuri.

Trabalho contemplado pelo programa Rumos Arte Cibernética do Itaú Cultural, 2009.

_________________

1 Assista ao vídeo sobre o trabalho Redes Vestíveis :<http://redesvestiveis.net/doc> . O trabalho recebeu, em 2011, Menção Honrosa no Prix Ars Electronica, na categoria Arte Interativa. Em 2010, foi contemplado pelo Festival Arte.Mov.

2 Conheça o trabalho Lugares Invisíveis no site da instituição La Chambre Blanche em Québec, no Canadá, local onde será desenvolvido: <http://tinyurl.com/3u8aodp/> Acesso e m: 6 jul. 2011.